domingo, 22 de janeiro de 2012

Um golpe de sorte

No final de dezembro descobri que a mulher de um colega de trabalho, por trabalhar no judiciário de Cajamar, possuia dois livros que tem textos pertinentes ao meu trabalho.

O primeiro deles é "Cajamar: Cidades de Lutas e Conquistas", lançado pelo Museu Municipal Casa da Memória em 2008.

O segundo é "Câmara Municipal de Cajamar: Trajetórias e Lutas", editado em 2006 à pedido da câmara municipal.

Este último não tem muita informação, cita o movimento dos Queixadas an passant.

Já o primeiro possui uma compilação de entrevistas, fotos e explicações sobre o conflito, ricamente ilustrado.

Na apresentação há a menção ao Mutirão da Memória, iniciado em 2003, com o colhimento de depoimentos e documentos dos moradores sobre a história da cidade, que em 2006 foram utilizados para montar o acervo do Museu Municipal Casa da Memória.

Há uma boa biografia sobre o Pe. Bianchi, sobre o dr. Mário Carvalho de Jesus e sobre Adballa.


FERREIRA, JOSÉ ABÍLIO(ORG). Cajamar: Cidade de Lutas e Conquistas. São Paulo: Editora Noovha América, 2008. ISBN 978-85-7673-134-4.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Metodologia

Ainda estou decidindo qual metodologia usar. Como estou na fase de revisão bibliográfica tenho encontrado referências sobre alguns panfletos e materiais produzidos pelo Sindicato na época da greve e a teses sobre
movimentos sociais formados pelos descendentes dos Queixadas que eram atuantes nos anos 80 e 90 e 2000 em Perus.

Quando começar a visitar as bibliotecas e puder ler estes documentos e teses, saberei se vale a pena usar metodologias de trabalho documentalista, ou com idas à campo para observar se há algum resquício da firmeza-permanente em Perus e Cajamar.

No entanto, até o presente momento a metodologia de trabalho será a contextualização da luta dos Queixadas, seus concorrentes e aliados; a contextualização da situação política e social mais global e qual a estrutura de oportunidade política(EOP); e uma contextualização do interior do próprio movimento dos Queixadas. Com este estudo pretendo observar qual o ponto de partida da ação, o quanto a não-violência já era praticada

Antes disso precisarei compilar um conceito de não-violência com base no texto das lideranças dos próprios Queixadas, complementando com outras fontes relevantes.

Em um segundo momento passarei a uma análise processual com um foco mais objetivo. Ordenando os diversos eventos no tempo tentarei encontrar os elementos que indiquem a presença de um pensamento e de uma ação comprometidas com uma ética ou uma estratégia não-violenta, observarei também as mudanças da EOP e se elas podem ter condicionado ou reduzido as opções de ação e também discriminarei as práticas formativas promovidas pelo Sindicato e seus parceiros.

Em um terceiro momento passarei a uma análise dos valores das lideranças através da análise de suas trajetórias e de suas reflexões. Além disso vou mapear a construção da identidade dos Queixadas. O objetivo será sempre perceber como tais elementos influenciaram na formulação da firmeza-permanente, a não-violência dos Queixadas.

Título e Objetivos

Título

Os Queixadas e a firmeza-permanente: um estudo sobre o aprendizado da não-violência.

Objetivos

  1. Avaliar a extensão do aprendizado da não-violência pelos Queixadas e suas lideranças;
  2. Compor um repertório com as práticas que contribuíram para o ensino e o aprendizado da não-violência;
  3. Contextualizar tais práticas para encontrar os elementos exclusivos àquele momento histórico e àquela comunidade específica, para futuramente poder fazer um estudo comparativo com outras lutas e encontrar padrões que orientem o trabalho de outros movimentos sociais que se interessem por este tipo de luta.

Formulação das Hipóteses

A primeira hipótese é que a estrutura de oportunidades políticas contribuiu para a adoção de práticas não-violentas. Na década de 60, em meio à guerra fria, amplos setores da Igreja Católica rechaçavam o comunismo. Por conta disso a FNT buscava uma terceira via de ação, que se opusesse tanto à revolução violenta quanto à violência econômica do capitalismo, porém, tal escolha foi guiada pelos próprios valores das lideranças. Mário Carvalho de Jesus, o advogado, se formou na JUC, era militante de um movimento criado pelo Padre Lebret e nutria a crença na solidariedade e na doutrina social da igreja.

A segunda hipótese a ser verificada é que a não-violência foi uma opção da liderança que dissuadiu os operários a utilizarem outras estratégias.

A terceira hipótese é que houve um amadurecimento da prática não-violenta ao longo da mobilização, no iníciou havia um vínculo entre o discurso da doutrina social da igreja e as estratégias de luta jurídica e política e era buscado demonstrar aos operários que eles poderiam fazer greve para pressionar seu patrão, porém, conforme a estrutura de oportunidades políticas foi mudando, primeiro em 1962 com o governo voltando as costas para os Queixadas e os 1200 grevistas sendo demitidos e depois em 1964 com a ditadura, ações alternativas tais como jejuns e acampamentos passaram a ser utilizadas e em 1967 Hildegar Goss-Mayr, uma ativista internacional, demonstrou que a prática deles era não-violenta e as lideranças passaram a se reconhecer como tal e a refletir sobre o assunto, adotando o discurso não-violento frente ao discurso anterior, que após o início da ditadura passou a ser questionado pelos seus praticantes.

A quarta hipótese é que desde a década de 50 as lideranças adotaram uma postura de educar os operários, utilizando pequenas ações para demonstrar que uma prática era efetiva, ajudando a envolver mais pessoas na luta e conforme a luta se ampliava e a liderança se tornava mais respeitada, suas reflexões públicas sobre o porquê não usar a violência passaram a ter mais peso.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Delimitação do Problema

A pretensão desta pesquisa é investigar como ocorreu a aplicação da Firmeza Permanente na luta dos queixadas e se ela foi efetiva, dando uma especial atenção às estratégias de formação utilizadas pelas lideranças sindicais para difundir os valores e princípios da ação não-violenta.

Porém, não consegui delimitar o problema com apenas uma pergunta, tenho uma série de dúvidas que agrupei em dois pontos principais:

A primeira questão é sobre o aprendizado. Compreendendo o "ser não violento" em duas dimensões: a ética dos indivíduos/instituição e a estratégia de luta coletiva, qual a profundidade do aprendizado dos Queixadas sobre a não-violência?

A segunda questão condiz ao ensino/formação. Quais as práticas e estratégias sindicais que contribuíram para a formação dos operários? Elas foram influenciadas pela estrutura de oportunidades política? Pela bagagem e valores das lideranças e dos operários?

Com isto pretendo averiguar se o que ocorreu entre os Queixadas pode ser entendido como não-violência e caso sim, resgatar as práticas que contribuíram para a formação destes valores, sempre observando que no sindicato e na fábrica a educação não é um processo diferenciado tal como em uma escola e portanto pode estar integrado às práticas mais diversas.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Referencial Teórico

Primeiramente irei me basear em diversas fontes para delimitar o conceito de não-violência. A principal será o livro Firmeza Permanente do Secretariado Justiça e Não-Violência da Frente Nacional do Trabalho(FNT), grupo do qual o Sindicato de Perus fazia parte, e complementarei com reflexões encontradas na obra do filósofo francês Jean-Marie Muller, entre outros.

Para entender a história da mobilização analisarei os textos produzidos pelos Queixadas e pela FNT, a tese de doutorado de Élcio Siqueira na qual ele revisa a história do movimento, o livro de Silvia Manfredi sobre educação sindical no qual há um capítulo sobre os métodos pedagógicos da FNT com entrevistas realizadas pela autora em 1982 e o documentário de Rogério Corrêa com reconstituições de importantes cenas da greve de 1962 interpretadas pelos próprios Queixadas.

Pretendo avaliar se o aprendizado do conceito da não-violência foi resultado direto da mobilização e das estratégias de formação do sindicato, para tanto farei uso de algumas ferramentas teóricas da sociologia.

A não-violência pode ser vista em duas dimensões, uma mais restrita que utiliza a não-violência como uma estratégia de luta social e outra que toma a não-violência como um princípio de vida. Para fazer uma leitura da dimensão estretégica vou utilizar elementos da Teoria do Processo Político de Sidney Tarrow, principalmente o conceito de Estrutura de Oportunidades Políticas(EOP) que servirá para identificar ao longo do conflito os fatores conjunturais que favoreceram a adoção desta estratégia. O instrumental de Tarrow no entanto é mais útil para situações de confronto, para estudar a influência que o Sindicato sofreu das organizações parceiras nos periodos de "paz", lançarei mão do conceito de "redes de movimentos sociais" da Teoria dos Novos Movimentos Sociais, ainda estou reunindo os textos que vão me guiar, é provável que utilize Melucci e Touraine. Esta teoria tem também um vasto instrumental para trabalhar com a questão dos valores, que poderá me ajudar a analisar a segunda dimensão, além de um conceito de identidade, que pode ajudar a analisar a importância da identidade "Queixada" para a consolidação do movimento.

Por fim vou analisar a trajetória do Sindicato de Perus e de suas lideranças para identificar sua predisposição a este tipo de ação. Ainda estou indeciso de que referencial utilizar neste caso, é provável que utilize a obra de Norbert Elias e seu conceito de habitus, porém ainda estou aprofundando a leitura. Quanto ao histórico das lideranças e do sindicato, há um bom material na tese de Élcio Siqueira e caso não seja suficiente há o arquivo de Mário Carvalho de Jesus na biblioteca da UNICAMP.

Complementando os estudos sobre o aprendizado da não-violência, estudarei como ela foi ensinada aos operários ao longo da luta, para isso irei contar com a bibliografia sobre os queixadas já citada anteriormente, principalmente com o texto de Silvia Manfredi.


FRAGOSO, Antônio; BARBÉ, Domingos; CÂMARA, Hélder; et al. A Firmeza-Permanente: A força da não-violência. 2ª ed. São Paulo: Loyola-Vega, 1977.

MANFREDI, SILVIA MARIA. Educação sindical entre o conformismo e a crítica. São Paulo: Edições Loyola, 1986.

MCADAM, Doug; TARROW, Sidney; TILLY, Charles (1996). “Para Mapear o Confronto Político”. In: Lua Nova 76. São Paulo: CEDEC.

MULLER, Jean-Marie. O princípio da não-violência: Uma trajetória filosófica. 1st ed. São Paulo: Palas Athena, 2007. ISBN 978-85-60804-02-3.

SIQUEIRA, ELCIO. Melhores que o patrão : a luta pela cogestão operaria na Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus (1958-1963). Campinas: Universidade Estadual de Campinas . Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2009. Tese (doutorado). Disponível em: . Acesso em: 17 nov. 2011.

Filmes
  1. Rogério Corrêa, Os queixadas, DVD, Documentário, 1978.

domingo, 27 de novembro de 2011

Justificativa

Tema

A pesquisa investigará a Firmeza Permanente, forma de luta não violenta elaborada por setores progressistas da Igreja Católica durante os anos 60/70, seu desenvolvimento e sua aplicação na luta dos Queixadas, os trabalhadores da fábrica de cimento portland de Perus que se mantiveram mobilizados desde os fins dos anos 50 até meados dos anos 70.

Justificativa

Porque o meu interesse no assunto?

Aos 18 anos, ao começar a militar em um movimento social, comecei a participar de atividades de reflexão e campanhas para o grande público nas quais fui apresentado a uma outra forma de reagir diante dos problemas cotidianos e sociais: a não violência ativa.

Nesse processo pude perceber que a resposta violenta, embora seja naturalizada, não é natural, mas sim cultural, um padrão de comportamento codificado por nossa sociedade e que de tão arraigado acaba se tornando mecânico e a resposta mais lógica a uma situação qualquer. A íntima culpa por não ser aquilo que os outros esperam, o desejo secreto de espancar alguém que nos fez mal, a palavra maliciosamente dita para machucar o outro, a agressão física, o preconceito, as guerras, são diversas facetas de um mesmo fenômeno, o mau trato.

Embora intelectualmente simples de entender, a não violência, por confrontar valores tão enraizados, é extremamente complicada de ser praticada, pois requer uma atitude sempre humilde para reconhecer os erros e um olhar sempre atento, mas nas situações cotidianas, quando estamos cansados e desatentos, a primeira atitude que aparece em nosso repertório é a violenta.

Tomei gosto pela temática e comecei a pesquisar sobre o assunto e há alguns anos, preparando um pequeno painel para o dia 2 de outubro, o dia internacional da não violência, fui pesquisar casos de não violência ao redor do mundo. Penei um pouco para achar exemplos no Brasil, embora haja desde o tempo da abolição pessoas pessoas que lutaram sem usar a violência, bem poucos grupos ou pessoas se auto declararam não violentas durante lutas sociais. Um deles no entanto me chamou muito a atenção, uma greve em Perus que durou 7 anos, adentrando a ditadura, sofrendo todo tipo de perseguição, mas mesmo assim manteve-se firme, conseguindo a simpatia da opinião pública e uma vitória parcial ao final. Os grevistas eram conhecidos como os Queixadas e eram assessorados juridicamente por Mário Carvalho de Jesus, um advogado católico, que fez um estágio na França com os grupos do Padre Lebret e ao chegar no Brasil passou a atuar em sindicatos, se utilizando da metodologia da Não Violência. Porém, como a não violência era vista pelos trabalhadores como sinônimo de covardia, o termo foi substituído por Firmeza Permanente.

Mas, o que isso tem a ver com a pedagogia?

Realmente, pode parecer estranho um trabalho de pedagogia se debruçar sobre um movimento operário da indústria cimenteira da periférica região de Perus. A estranheza pode aumentar ainda mais ao se considerar que será estudado o remoto período delimitado entre o fim da década de 50 e meados dos anos 70.

O estranhamento existe com razão, primeiro porque este é um tipo de objeto que interessaria mais comunmente a sociólogos e historiadores e em segundo lugar, a formação de trabalhadores em sindicatos não está no currículo da pedagogia, adultos aparecem, quando muito, nas optativas sobre EJA.

Para entender a escolha de um objeto de estudo aparentemente tão inusitado, é necessário recordar que a educação não se restringe à escola. Onde houver situação de ensino e aprendizado, ainda que não tão diferenciada de outras práticas sociais, como em uma sala de aula, a pedagogia poderá ser de grande valia. E o inverso também é válido: o desenvolvimento do conhecimento pedagógico poderá se valer de diversas experiências de ensino e aprendizado, ainda que não-escolares.

Seguindo esta trilha, o objetivo de estudar a mobilização dos queixadas, é identificar quais as práticas de formação dos trabalhadores foram utilizadas e se elas podem ser reproduzidas em outros contextos.

E qual a aplicação de tal estudo?

Embora a grande greve de 1962-69 não tenha sido planejada, pelo que lemos nos relatos dos líderes do sindicato, tampouco a mobilização dos trabalhadores de Perus foi espontânea, desde a década de 50 houve uma preocupação em ajudar o trabalhador a perder o medo de se manifestar contra as injustiças cometidas pelo Mau Patrão. E de pouco em pouco os trabalhadores foram fazendo pequenas greves, depois uma campanha para conseguir a desapropriação da fábrica, transferido seu controle para os próprios trabalhadores.

E no período posterior à grande greve, mesmo com mais da metade dos trabalhadores tendo perdido a causa, os queixadas se mantiveram mobilizados por mais alguns anos até conseguirem receber por todos os anos parados.

O estudo de uma mobilização como esta, que durou mais de 20 anos, pode ser o cerne de uma pesquisa mais ampla sobre o emprego de metodologias de ação não violenta em movimentos sociais.