Tema
A pesquisa investigará a Firmeza Permanente, forma de luta não violenta elaborada por setores progressistas da Igreja Católica durante os anos 60/70, seu desenvolvimento e sua aplicação na luta dos Queixadas, os trabalhadores da fábrica de cimento portland de Perus que se mantiveram mobilizados desde os fins dos anos 50 até meados dos anos 70.
Justificativa
Porque o meu interesse no assunto?
Aos 18 anos, ao começar a militar em um movimento social, comecei a participar de atividades de reflexão e campanhas para o grande público nas quais fui apresentado a uma outra forma de reagir diante dos problemas cotidianos e sociais: a não violência ativa.
Nesse processo pude perceber que a resposta violenta, embora seja naturalizada, não é natural, mas sim cultural, um padrão de comportamento codificado por nossa sociedade e que de tão arraigado acaba se tornando mecânico e a resposta mais lógica a uma situação qualquer. A íntima culpa por não ser aquilo que os outros esperam, o desejo secreto de espancar alguém que nos fez mal, a palavra maliciosamente dita para machucar o outro, a agressão física, o preconceito, as guerras, são diversas facetas de um mesmo fenômeno, o mau trato.
Embora intelectualmente simples de entender, a não violência, por confrontar valores tão enraizados, é extremamente complicada de ser praticada, pois requer uma atitude sempre humilde para reconhecer os erros e um olhar sempre atento, mas nas situações cotidianas, quando estamos cansados e desatentos, a primeira atitude que aparece em nosso repertório é a violenta.
Tomei gosto pela temática e comecei a pesquisar sobre o assunto e há alguns anos, preparando um pequeno painel para o dia 2 de outubro, o dia internacional da não violência, fui pesquisar casos de não violência ao redor do mundo. Penei um pouco para achar exemplos no Brasil, embora haja desde o tempo da abolição pessoas pessoas que lutaram sem usar a violência, bem poucos grupos ou pessoas se auto declararam não violentas durante lutas sociais. Um deles no entanto me chamou muito a atenção, uma greve em Perus que durou 7 anos, adentrando a ditadura, sofrendo todo tipo de perseguição, mas mesmo assim manteve-se firme, conseguindo a simpatia da opinião pública e uma vitória parcial ao final. Os grevistas eram conhecidos como os Queixadas e eram assessorados juridicamente por Mário Carvalho de Jesus, um advogado católico, que fez um estágio na França com os grupos do Padre Lebret e ao chegar no Brasil passou a atuar em sindicatos, se utilizando da metodologia da Não Violência. Porém, como a não violência era vista pelos trabalhadores como sinônimo de covardia, o termo foi substituído por Firmeza Permanente.
Mas, o que isso tem a ver com a pedagogia?
Realmente, pode parecer estranho um trabalho de pedagogia se debruçar sobre um movimento operário da indústria cimenteira da periférica região de Perus. A estranheza pode aumentar ainda mais ao se considerar que será estudado o remoto período delimitado entre o fim da década de 50 e meados dos anos 70.
O estranhamento existe com razão, primeiro porque este é um tipo de objeto que interessaria mais comunmente a sociólogos e historiadores e em segundo lugar, a formação de trabalhadores em sindicatos não está no currículo da pedagogia, adultos aparecem, quando muito, nas optativas sobre EJA.
Para entender a escolha de um objeto de estudo aparentemente tão inusitado, é necessário recordar que a educação não se restringe à escola. Onde houver situação de ensino e aprendizado, ainda que não tão diferenciada de outras práticas sociais, como em uma sala de aula, a pedagogia poderá ser de grande valia. E o inverso também é válido: o desenvolvimento do conhecimento pedagógico poderá se valer de diversas experiências de ensino e aprendizado, ainda que não-escolares.
Seguindo esta trilha, o objetivo de estudar a mobilização dos queixadas, é identificar quais as práticas de formação dos trabalhadores foram utilizadas e se elas podem ser reproduzidas em outros contextos.
E qual a aplicação de tal estudo?
Embora a grande greve de 1962-69 não tenha sido planejada, pelo que lemos nos relatos dos líderes do sindicato, tampouco a mobilização dos trabalhadores de Perus foi espontânea, desde a década de 50 houve uma preocupação em ajudar o trabalhador a perder o medo de se manifestar contra as injustiças cometidas pelo Mau Patrão. E de pouco em pouco os trabalhadores foram fazendo pequenas greves, depois uma campanha para conseguir a desapropriação da fábrica, transferido seu controle para os próprios trabalhadores.
E no período posterior à grande greve, mesmo com mais da metade dos trabalhadores tendo perdido a causa, os queixadas se mantiveram mobilizados por mais alguns anos até conseguirem receber por todos os anos parados.
O estudo de uma mobilização como esta, que durou mais de 20 anos, pode ser o cerne de uma pesquisa mais ampla sobre o emprego de metodologias de ação não violenta em movimentos sociais.
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