MURARO, VALMIR FRANCISCO. Juventude Operária Católica. 1ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1985. ISBN 8511020977.
Muraro, neste pequeno estudo sobre a juventude católica no movimento operário brasileiro, trabalha com a hipótese de que através da metodologia "ver, julgar e agir" os militantes da JOC brasileira se envolveram na problemática operária, ajudando a construir uma aproximação da igreja católica com os menos favorecidos, em uma época que a igreja estava voltada apenas para as elites, e desta maneira serviu de modelo para as pastorais que surgiriam depois.
O livro está dividido em uma introdução, 5 capítulos e duas páginas com indicações para leitura.
Na introdução o autor apresenta a sua motivação de estudar a JOC, para ambientar o estudo do catolicismo no Brasil em sua relação com a temática social e depreender qual foi o valor da JOC, foi mais uma utopia operária? O autor apresenta um resumo da análise histórica que irá desenvolver no resto da obra e resume os questionamentos a que chegou, o jocismo se ajustou aos momentos políticos da vida nacional, o jocismo influenciou as outras manifestações católicas de seu tempo ou ainda se ele foi um momento de ruptura do catolicismo.
No primeiro capítulo intitulado "A vida e o sonho: Uma utopia operária brasileira" o autor descreve a situação decepcionante dos operários brasileiros serviu de mola para impulsionar a JOC como uma força que na visão de seus membros poderia ser uma esperança dentro das fendas da transformação econômica brasileira.
O jocismo se deslocou de um momento onde propunha uma salvação puramente evangélica e se transformou numa verdadeira utopia, no sentido de uma força capaz de provocar mudanças, tal passagem partiu de fatores subjetivos e se alimentou de elementos objetivos com o qual se confrontava na ação.
Com a industrialização do período Vargas havia um "sonho" operário de que dias melhores eram possíveis e neste momento a JOC surgiu para formar um ambiente saudável dentro dos locais de trabalho, com objetivos claramente espirituais, posteriormente,os seus ideais foram se aproximando de ideais humanitários e liberais, reinvindicando uma sociedade menos cruel e exploratória junto aos governantes, influenciando na instalação de mecanismos reguladores. Após 1964 abraçou uma tendência na qual a utopia religiosa se fundiria em um programa político que a realizasse, reformando a política de forma que esta girasse em torno de uma nova vida, eliminando o sistema sócio-econômico em vigor. Com a ditadura os jocistas foram perseguidos e a hierarquia eclesiástica, em sua maioria conservadora, se calou, as ideias jocistas não foram debeladas, o autor fala de um excedente utópico que impulsionou um novo ciclo imaginativo que possibilitou que a Igreja Católica abarcasse novos projetos utópicos, tais como a Pastoral Operária.
No segundo capítulo o autor traça um contexto geral das JOC, ela foi fundada pelo belga Léon Joseph Cardjin, que percebendo que a maioria de seus amigos de infância ao se tornarem operários se afastavam da igreja, já que esta tinha uma pastoral mais voltada para as elites econômicas, resolveu organizar um movimento religioso que reconquistasse os jovens trabalhadores.
Cardjin rejeitava toda forma de paternalismo e considerava importante que os operários se conscientizassem que somente através de sua ação resolveriam seus problemas, assim, a igreja ajudaria na organização, mas os próprios operários seriam os ativistas, partindo da análise da situação, o estudo das melhores atitudes a serem tomadas e de uma ação baseada nestas reflexões: ver, julgar e agir.
Após algumas primeiras experiências Cardjin precisou de alguns anos para conseguir que o clero conservador belga permitisse a criação da JOC como um movimento autônomo em 1923, com a intervenção papal, que via na JOC uma forma de concretizar a tendência da Rerum Novarum de 1891. E na década de 30, com os sucessos obtidos na Europa, o Vaticano ajudou na expansão do Movimento.
No Brasil a Ação Católica Brasileira criou seus primeiros grupos especializados em juventude nos primeiros anos da década de 30 e o movimento foi oficializado em 1948.
Em seus primeiros anos a JOC objetivava transformar a situação humilhante dos operários, convertendo o espaço das empresas em um lugar mais sadio, visando assim a redenção dos trabalhadores do mundo inteiro. Os membros eram formados e tinha limite de idade na participação, aprendiam a utilizar o inquérito jocista, descobrir os problemas e agir para minimizá-los.A JOC tinha uma técnica que se ocupava dos problemas concretos "ver, julgar e agir" o método pedagógico jocista, junto com o método de conquista, os três "M", militante, meio e massa o diferenciava dos outros movimentos leigos da época. E tinha uma mística que se ocupava das questões transcedentais, desde 1933 o Vaticano orientava que os movimentos leigos tivessem uma mística própria que no caso da JOC tinha o objetivo de recristianizar os ambientes de trabalho. Os jovens eram atraídos por meio de atividades recreativas, sociais e culturais e participavam de atividades místicas.
No terceiro capítulo, "A JOC e o desafio brasileiro", o autor conta como a Ação Católica surgiu, como uma forma de atender os anseios do Vaticano de transformar o Brasil em uma nação católica e ao mesmo tempo combater os movimentos emergentes que buscavam desestabilizar a "ordem", vários movimentos surgiram daí e a JOC desde seu início tinha como princípio a harmonia com os demais grupos. A JOC se organizava em secção nacional e a secção local, que era a base de toda a atividade e onde tinha a maior carga de formação. Todo militante deveria ser capaz de ser um propagandistas e reunir seus colegas de trabalho para recreação ou discussões e quando o grupo se consolidava estava formada uma nova secção. Tais secções eram aconselhadas a ter um círculo de estudos semanal ou quinzenal com o máximo de 15 pessoas, o conjunto de secções de uma diocese formava uma federação jocista com 3 dirigentes e 1 assistente eclesiástico, os dirigentes eram representantes no conselho nacional que traçava o Plano Nacional e como o Brasil era muito grande haviam as confederações, âmbito de reunião das federações de uma mesma região. Em 1956 a JOC já contava com 424 secções. Entre as atividades mais importantes da época estavam a economia e a preparação para o casamento dos jovens.
A autor descreve ainda 3 grandes fases do jocismo no Brasil:
1948-1958 - fase de divulgação e recrutamento, na qual os mecanismos descritos serviram para levar a JOC para todo o país;
1959-1964 - fase de "esperança", na qual a JOC refletia a agitação social brasileira do período e os jocistas passaram a se envolver com os problemas do período, com as atenções se ampliando da vida religiosa, também para a vida social, política e econômica, alimentando a esperança para dias melhores para os trabalhadores, em 1961 a JOC advertia se não houvessem reformas de base haveria uma revolução no Brasil, inclusive uma revolução cristã.
1965-1970 - fase da "ruptura" com o Estado e desarticulação, a repressão vinda com o golpe levou os militantes a refletirem sobre a situação e chegarem a uma nova visão social, com aproximação a grupos de esquerda na luta pelos direitos dos trabalhadores.
No quarto capítulo Muraro fala sobre "O Projeto social do jocismo no Brasil", durante os primeiros anos da década de 60 a JOC se colocava como o arauto dos problemas operários, criticando o capitalismo desenfreado instalado no Brasil e os governantes também eram apontados como responsáveis pela miséria dos trabalhadores, neste período a JOC cresceu numericamente e passou a ser influenciada pela esquerda católica(Juventude Universitária Católica e Ação Popular). Optando por uma ação mais social e menos sacralizada os setores mais conservadores da igreja começaram a se afastar dela. Com o golpe, a ruptura, apenas os bispos de Recife e São Paulo apoiavam a JOC e o movimento começou a sofrer perseguições e seus membros foram presos, a igreja só saiu em seu apoio após o reitor da PUC ser preso, o que mudou a conjuntura no alto clero e por consequência a atitude da igreja.
No quinto capítulo sobre "o significado do jocismo brasileiro", o autor conclui que o movimento ofereceu a igreja contribuições significativas, na medida que ajudou a igreja a reavaliar o significado do "povo" e de suas atitudes pastorais, tendo grande influência no desenvolvimento da igreja popular no Brasil, sendo que as primeiras CEBs no Maranhão tinham entre seus integrantes antigos jocistas.
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