Há algum tempo ouvia falar sobre a greve dos queixadas, a primeira vez foi quando vi o espetáculo "os queixadinhas" do TUOV. A música até hoje não sai da minha cabeça:
"Tem um porco do mato,
Um porco selvagem,
Que quando anda em bando vira turma da pesada,
Seu nome é: Queixada!
Seu nome é: Queixada!
Teve uma greve na cidade de Perus,
Onde os operários sabedô de seus direitos,
Assinaram em cruz.
Foi briga feia, durou dezena e meia
Uma briga danada,
E os operários chamavam queixadas."
Há uns dois ou três anos atrás, durante as comemorações do 2 de outubro, comecei uma pesquisa para um pequeno dossiê sobre exemplos concretos de não violência, cultura de paz e direitos humanos no Brasil, geralmente quando falamos em não violência chove gente dizendo que este tipo de coisa funciona na Índia mas não aqui. Reunir exemplos brasileiros seria uma forma de demonstrar como tal argumento é falacioso.
Não tive tanto êxito para estruturar o dossiê, embora na pesquisa tenha encontrado muitos exemplos interessantes pelo país a fora, desde o grupo de ativistas que estruturou o dossiê "Brasil Nunca Mais" até homens como Luiz Gama, que usaram estratégias peculiaríssimas na luta contra a escravidão. Um dos casos que mais pesquisei foi a greve de Perus, ou greve dos queixadas. Ela teve um cunho não violento durante seus mais de 7 anos de duração.
O sindicato dos cimenteiros de Perus foi assessorado desde os fins da década de 50 pelo advogado Mário Carvalho de Jesus(MCJ), formado dentro de grupos de militância católica e muito inspirado pelo Padre Lebret e por Gandhi.
Em seus escritos MCJ comenta que na década de 50 os operários não acreditavam em greve de maneira alguma, levou uns 5 anos trabalhando com eles até que houve uma pequena greve no começo da década de 60 que teve algum êxito, eles começaram então a pleitear junto ao governo que a fábrica fosse desapropriada por conta de suas dívidas e passada para os empregados. Esta proposta parecia muito factível e isso talvez tenha assustado o governo, que mudou de lado e na grande greve de 62 o governo virou as costas para os grevistas e lhes mandou a polícia em cima. O mau patrão, Abdala, político influente, demitiu 1200 funcionários. Como as demissões eram ilegais, pois os funcionários estavam em greve, eles mantiveram a greve, infelizmente boa parte dos empregados perderam nos tribunais quando houve o golpe militar. Um dos juízes quando sofreu aposentadoria compulsória se tornou advogado do grupo Abdala inclusive. Em 1969, 7 anos após o início da causa, a justiça deu ganho de causa para cerca de metade dos grevistas. Ao longo destes 7 anos de luta os queixadas mantiveram uma luta baseada na firmeza permanente, este terma substituia a não violência, pois para os operários não violência soava como covardia. Este desenrolar da greve é bem interessante, mas não é meu foco.
Meu objetivo é entender a questão da educação de adultos para uma luta não violenta no contexto de um conflito social. Gostaria de investigar este período que vai desde o início da atuação de MCJ no sindicato de Perus na década de 50 e depois no decorrer da greve até os anos 70, quando a decisão judicial de que o mau pratão precisa pagar os dias parados dos grevistas leva à intervenção na fábrica.
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